23.7.14

Rubem Alves deixa saudade, já Suassuna um vazio enorme.
O Rubem era doce, leve, mesmo quando fazia uma crítica era de uma delicadeza extrema, uma alma apaixonante.
Ariano Suassuna era ácido, vibrante, intenso.Seus personagens se agigantavam em nosso imaginário.
Com ele despertei para o fato de não precisarmos importar cultura alheia, a nossa é extremamente rica e diversificada.Foi ele também que me aproximou de uma parte do país que mal conhecia.Quando estive em Recife respirei Suassuna do primeiro ao último dia e, é claro, me apaixonei pela cidade, pela cultura regional, fucei cada canto, cada feira, cada cheiro e sabor.Voltei encantada por tudo que vi e ouvi e principalmente por Suassuna.Que privilégio ter pisado aonde ele pisou, ter amado parte da região que ele amava desbravadamente!

Matheus Nachtergaele escreveu para ele umas das mais bonitas carta de despedida que já li:

"Carta para Ariano,
Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.
Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Sheakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.
O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.
Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.
Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.
Teu, Matheus Nachtergaele"
Fonte: www.diariodepernambuco.com.br

E fora que ele tinha um humor sensacional...

Um comentário:

Anônimo disse...

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