2.5.10

Mea Culpa



"Enquanto o trem deixava a estação, numa dolorosa e lenta partida, eu me lembrava do que me disseram os seus olhos. Certamente que falaram comigo e foram muito mais honestos que você. 
Não seria muito mais fácil ter confessado que o amor acabou, que era somente uma ilusão adolescente que desmoronou diante da cruel realidade?
Minhas mãos, já um tanto trêmulas, procuram agora um lenço de papel para enxugar as lágrimas que eu pensei que nem tivesse mais. 
Sei que você sorriu aos nos despedirmos na plataforma.Mas seus olhos tinham pressa, queriam logo sair dalí. 
Mesmo assim, quando o trem partiu, coloquei a cabeça para fora da janela na tentativa de um último adeus. Quem estava lá, naquele trem, não era mais uma senhora de sessenta anos, com as inúmeras marcas que a idade fora lhe deixando, mas sim aquela menina doce e meiga que você conheceu um dia. Era aquela adolescente cheia de sonhos e tanto amor.
E o que eu vi, ao longe, foi somente a sombra de um homem que um dia amei. Sei que esta carta nunca lhe chegará às mãos, mas preciso escrevê-la para tirar do peito a dor do não amor. 
Finalmente estás vingado. A menina que um dia lhe abandonou não abandonará mais ninguém. 
A vida tirou-me a pressa e arrancou-me as asas. E estou exatamente aonde sempre deveria ter estado, esquecida lá no fundo dos seus olhos."
Fotografia de Boris Savelev

Um comentário:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Na hora da despedida, há sempre evocações do passado e pouas esperanças no futuro. Porque terá de ser assim?