2.10.09

Lembro da minha mãe diversas vezes me dizendo:
- Mas que idéia mais estapafúrdia! Nunca fui procurar o significado da palavra, mas sempre entendi bem o que ela queria dizer. Minha mãe tentava me dizer que minhas idéias não soariam muito bem aos ouvidos alheios.E eu nunca fui de ficar calada, acho que já nasci constestando alguém ou alguma coisa.Desde pequena eu tinha pavor de me vestir igual aos outros porque eu não era igual aos outros.Eu aprendi o significado de diversidade muito antes de compreender o que significava estapafúrdia.Logo no início do meu processo de alfabetização eu já fui advertida quando, ao ser argumentada na aula de religião, respondi o que representava Jesus Cristo para mim.Todos na classe disseram amor, perdão, filho e representante de Deus na Terra e etc. E eu, usando desta minha lógica estapafúrdia, fui dizer que para mim, ele era como um irmão ou parente mais velho com algo para me ensinar. Nem preciso dizer que a professora me acusou de desrespeito. Mas eu pensava que, sendo todo ser humano a imagem e semelhança de Deus, Jesus, tb filho de Deus, não poderia ser melhor ou pior que eu, e sim igual.O que ele poderia é saber muito mais do que eu e ser também muito mais evoluído.Mas enquanto indivíduo estávamos em pé de igualdade e eu sentia muito, de verdade, que ele, por falta de compreensão e interesses políticos da época, tenha sido crucificado.Eu não duvidava da sua bondade infinita porque eu tb sabia o que era ser boa e caridosa.Mas em 1970 e qualquer coisa esse raciocínio soava muito mal.
Alguns anos mais tarde, quando eu tinha 14 anos, uma amiga da mesma idade fez um aborto. Mais uma vez minhas idéias pareciam estapafúrdias. Eu, por inúmeras razões e hoje por ter vivido a experiência de não poder engravidar, não faria um aborto.E na verdade, nem naquela época. Entretanto, fui a única pessoa a apoiar a decisão dessa amiga. Era a vida dela, o corpo dela e ela tinha total consciência do ato que ia praticar.Tanto que nunca se arrependeu.Mas ela foi praticamente crucificada por quem soube. Muitas vezes eu acho que os pecados existem para que as pessoas possam apontar nos outros a culpa por seus próprios erros.É sempre tudo muito conveniente.
Eu não mataria outra pessoa e nem mesmo um animal porque eu respeito a vida, acima de tudo.E talvez numa hora de desespero, defendendo por exemplo o meu filho, eu seria capaz de matar quem ou o que estivesse colocando a vida dele em risco. Quando fomos assaltados os ladrões ameaçaram diversas vezes matar meu filho.Eu não tenho certeza se naquela hora, se um deles tivesse realmente atirado, eu não teria pulado na mão do assassino e descarregado a arma nele. Julgar é sempre muito dificíl, talvez seja também algo estapafúrdio.

4 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Também passei minha infância e adolescência sendo acusado da mesma coisa. Quando nos desviamos dos padrões sócio- culturais dominantes, acham-nos estranhos.
Hoje em dia creio que ainda é pior, porque andam por aí querendo globalizar também o pensamento e fazer de nós soldadinhos de chumbo.

CGS disse...

E tanto que me fui identificando com o que aqui conta, à medida que lia, estapafúrdio ou não... deixou-me a pensar em tantas coisas, a pensar em memórias antigas, no que realmente somos capazes de fazer em situações extremas...

Veroca disse...

Turma, delícia de texto. Olha, sem a conhecer, faço uma idéia sua, de uma moça que corre daqui, dali, se desdobra, se espalha e depois se ajunta e tem sim, milhões de deliciosas, engraçadas, doces, sonhadoras, ahhhhhhhhhhhhh, tudo isto você resumiu bem: tem idéias estaparfúdias. Não as deixe sumir da sua casa hehehe. Beijos meus.

Turmalina disse...

Carlos, gosto de me sentir fora dos padrões :o)
CGS, eu prefiro nem pensar muito no que posso fazer em situações extremas e nem mesmo nas menos extremas :o)
Veroca, não sou tão moça assim...rs...mas de qq forma tento ter os pensamentos sempre jovens, para não esmorecer :o)