2.11.07

Álvaro Pacheco para :

O Dia de Finados

Um sino não ressoa nem a hora
é de lágrimas no muro de concreto.
Não se fala de morrer e nem de mortos
e há dia em tudo que é azul reverberante:
no homem de finado de uma nova geração
em que a morte é endovenosa
(...)
Toda hora é de morte e todo o dia

é Dia de Finados, precisamos
para isso permanência, e irmãos
tenhamos plenos, olhos plenos, braços plenos
em um dia qualquer e em todo dia
desse nosso todo Dia de Finados.

Mais um pouco de Álvaro Pacheco:

Variação

As palavras que não foram ditas
o gesto imobilizado antes de nascer
o sorriso desfeito ao menor obstáculo...
Ah, é preciso ter coragem para ser feliz!

Só mais um, ou dois :

Soneto Lírico

Escuta, ó minha amada, o tempo nunca pára
e o sorriso mais puro definha e emurchece.
Quer seja alma generosa ou seja alma avara
quer seja anjo ou demônio, seja choro ou prece

Seja o dia escuro, seja a noite mais clara
quer seja o ódio que mata ou o amor que enlouquece
o destino insensato pra tudo prepara
o seu sopro fatal que aniquila e emudece.

Escuta, pois, ó amada, meu apelo enorme
acorda em tua alma teu desejo que dorme
e dissolve em meus braços teus sonhos fatais.

Vivamos com avidez o minuto que passa
amemo-nos por hoje, que tudo é fumaça
e nós dois amanhã não existiremos mais!


Memória

Deixar a memória cumprir sua parte
juntar os pedaços compor os seus itens
então reverter-se do tempo e da carne

tornando-se apenas um puro fluir.
Deixar que a memória performe e execute

e sermos apenas processing data
(e indeléveis registros).

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